Tag: violência contra a mulher

  • Metendo a colher por mulheres na política: desafios legislativos em Uberlândia/MG

    Metendo a colher por mulheres na política: desafios legislativos em Uberlândia/MG

    Vereadora Cláudia Guerra na tribuna da Câmara Municipal de Uberlândia, 2024. Foto: Aline Rezende.

    Desde que assumi o meu mandato em 2020, eleita com quase 2700 votos em Uberlândia, na minha primeira eleição, abracei o compromisso de honrar cada pessoa que confiou na minha trajetória. Me comprometi a representar e defender as necessidades do povo de Uberlândia, trabalhando ativamente para que a voz da população, principalmente das pessoas mais desassistidas, ecoe para direcionar as políticas públicas necessárias.


    Passei também pela experiência de me lançar a Deputada Estadual em 2022, tendo sido, com a colega Duda Salabert, ela para federal e, eu, para estadual, as mulheres com mais votos do PDT no país. Tive quase 16 mil votos, 12 mil só em Uberlândia e o restante dos votos divididos em 428 municípios mineiros.


    Atuando há mais de 30 anos pela segurança e promoção das mulheres, na sua diversidade e interseccionalidade, sempre soube dos desafios enfrentados por presenças femininas em espaços de poder e de decisão. Senti na pele práticas de sexismo e misógina, em constantes tentativas de descredibilização, intimidação e silenciamento, com atitudes hoje já caracterizadas como violência política de gênero. A propósito, a lei contra a violência política de gênero em Uberlândia é do nosso mandato e foi aprovada na Câmara Municipal em 2022. 


    Passei por episódios como o corte do microfone enquanto falava na tribuna, onde um ex-presidente da Câmara mencionou que eu “falava mais que papagaio”, mesmo eu estando no meu tempo de fala; fui tachada como descontrolada com um parlamentar me perguntando se eu havia tomado calmante por estar quieta na minha mesa; me insultaram enquanto eu apenas defendia a minha posição em uma discussão de projeto; sofri provocações, me insultaram e tentaram me desacreditar falando, erroneamente, sobre minha vida pessoal.


    Enfim, inúmeras situações não usuais ou recorrentes com homens. Se homens xingam, partem para cima e gritam, estão num debate acalorado. Se mulheres debatem ideias, com argumentos assertivos, são tidas como barraqueiras, até mesmo por veículos de imprensa, que “coincidentemente” recebem recursos de publicidade da prefeitura.


    Recebi até mesmo ameaças de “estupro corretivo” e violência sexual, por três vezes com menções sobre minha assessoria e família, chegando no e-mail institucional da Câmara de Uberlândia, com remetentes falsos. Antes de acontecer comigo, parlamentares mineiras como Lohanna França, Bella Gonçalves e Beatriz Cerqueira também foram ameaçadas. Tomamos as providências juntamente com as forças de segurança, como a Delegacia de Mulheres da Polícia Civil e Ministério Público Federal, que constituíram um grupo de trabalho para conduzir investigações. Aguardamos no momento a identificação dos responsáveis por meio dos trabalhos em andamento.


    Conteúdo do primeiro e-mail de ameaça recebido pela Vereadora Cláudia Guerra. Fonte: E-mail institucional Vereadora Cláudia Guerra, 2023.
    Conteúdo do primeiro e-mail de ameaça recebido pela Vereadora Cláudia Guerra. Fonte: E-mail institucional Vereadora Cláudia Guerra, 2023.


    Onde estão as mulheres na política de Uberlândia?

    A Câmara de Uberlândia ainda não possui uma abertura igualitária para o aumento da representatividade feminina. Em 132 anos de legislativo municipal, somente 20 mulheres foram eleitas como vereadoras. E na legislatura em que me elegi, entraram 20 homens. Essa conta não fecha, sendo, as mulheres, a maior parte da população, das eleitoras, de mão-de-obra economicamente ativa, inclusive com maior escolaridade. Por outro lado, são as mais pobres, ainda com salários menores para as mesmas funções, as mais violentadas no âmbito do lar, principalmente as negras. Nosso Estado, Minas Gerais, tem ficado em 1º e 2º lugar em feminicídios do país e Uberlândia é a segunda cidade do estado. 


    Na composição de trabalhos da Câmara, as comissões parlamentares mais importantes são  presididas por homens e os pareceres são predominantemente políticos e não jurídicos ou técnicos. Estando como oposição, recebo muitos pareceres contrários, mesmo com projetos inspirados em outras propostas que tiveram pareceres favoráveis e aprovados em outras cidades. A mesa diretora nunca foi presidida por uma mulher. Prevalece a sub-representação feminina de mulheres com trajetória de promoção de outras mulheres. Nosso olhar e perspectiva são diferentes e precisam ser contempladas. 


    Dados que comprovam a sub-representatividade

    Diagnósticos nacionais contam, também, sobre os desafios das mulheres na política: entre 2016 e 2022, o Brasil teve, em média, 52% do eleitorado constituído por mulheres; 33% de candidaturas femininas e 15% de eleitas (TSE). O ranking revela que, em outubro de 2023, o Brasil ocupa a posição 132ª, com apenas 17,5% de assentos ocupados por mulheres na Câmara dos Deputados.


    Nas eleições gerais de 2022, 18% dos candidatos eleitos para o Poder Legislativo foram mulheres. Nesta eleição, foram eleitas 302 mulheres, contra 1.394 homens para a Câmara dos Deputados, Senado, Assembleias Legislativas e governos estaduais. A representatividade feminina na Câmara de Deputados(as) aumentou, passando de 77 para 91 (alta de 18,2%). No Senado, houve queda de 11 para dez senadoras eleitas. Porém, ao analisar o número de mulheres candidatas, foram 34% de mulheres, número que está acima da cota partidária (de 30%). (2022).


    Ações para promover mulheres na política

    Para se promover a igualdade de gênero no Parlamento precisamos fomentar práticas: mulheres integrarem as Mesas Diretoras e presidir Câmaras/Assembleias; relatarem e presidir as comissões mais relevantes (Ex.: Constituição e Justiça, Fiscalização e Orçamento); estruturação das Procuradorias das Mulheres, com servidores(as), espaço próprio adequado e equipamentos; mulheres serem dirigentes partidárias (presidentes como sou hoje na cidade); haver financiamento eleitoral equivalente ao de candidatos homens; haver formação de lideranças partidárias femininas.


    Precisamos compreender o porquê da  promoção da igualdade de gênero, no Parlamento: a perspectiva das mulheres em relação às políticas públicas são distintas, por conseguinte, suas soluções; para superar a sub-representatividade das mulheres em contradição com o número de população, eleitorado, escolaridade e mão de obra economicamente ativa, compostas por maioria de mulheres.


    Algumas de nossas leis que exemplificam o olhar e perspectiva feminina:

    – Lei 14065/2023, com o direito a acompanhante para mulheres em procedimentos médicos que necessitem sedação (com a lei federal legislação ampliada);

    – Lei 13876/2022 que torna obrigatória a divulgação da rede de proteção às mulheres em estabelecimentos de assistência à saúde;

    – Lei 13805/2022 com a fixação na entrada principal, nos banheiros, bares e outros locais visíveis de placas com as seguintes frases: “Violência e exploração sexual contra a mulher é crime. Denuncie – Disque 180.” e “Violação aos direitos humanos. Não se cale! Disque 100.”;

    – Lei 13726/2022 que institui ações pelo enfrentamento à violência política contra as mulheres;

    – Lei 13685/2022 que institui ações em prol de mães atípicas;

    – Lei 13560/2021 que institui ações em prol das mulheres indígenas;

    – Lei 13527/2021 que implementa iniciativas pela luta antimanicomial;

    – Lei 13496/2021 e 13622/2021 que institui a Semana de Conscientização da Perda Gestacional e Neonatal – “Lei Elis”, para garantia de assistência hospitalar de parto às gestantes e para mulheres em que ocorrer a perda neonatal ou gestacional;

    – Lei 13619/2021 para preferência na matrícula dos dependentes da mulher vítima de violência doméstica e familiar e da mulher mãe solo em instituição de educação básica mais próxima de seu domicílio.

    Os nossos indicativos ao prefeito também revelam nossa visão: institui o programa “Não se Cale”, protocolo para identificar situações de violência contra mulheres em espaços públicos e privados de lazer e estabelece procedimentos para auxiliar pessoas que se sintam em situação de risco; criação do cargo de Doula no município; profissionais da Psicologia e Serviço Social nas escolas municipais; programas educacionais à noite e aos finais de semana; plano individual de parto para as mulheres; isenção de IPTU a pacientes oncológicos(as); avaliação fonoaudiológica de bebês em todas a maternidades.


    Se encorajar e ocupar espaços de poder

    Apesar dos desafios impostos a nós, na política, os resultados que alcançamos e o apoio familiar e popular que recebemos nos motiva, nos reenergiza e nos encoraja. Para alterarmos a realidade, precisamos ocupar os espaços de decisões. Estar em postos de poder inspira outras mulheres para a atuação sintonizada com as reais necessidades da população.


    Como ativista do movimento de mulheres, voluntária fundadora da ONG SOS Mulheres na atuação há 27 anos com atendimento social, psicológico e jurídico continuado em situações de violência conjugal, familiar e de gênero; responsável pela implementação e primeira Procuradora da Mulher de Uberlândia, atual presidente do PDT em Uberlândia e tendo presidido também a Comissão dos Direitos das Mulheres, digo a todas: não irão nos intimidar!


    A tentativa de calar nossa voz é sinal de que estamos incomodando e no caminho correto. Como diria Nietzsche: “Aquilo que não me mata, me fortalece”. Juntas, chegaremos cada vez mais longe. Afinal, é fato que transformar a vida das mulheres, transforma todas as vidas! 


    Cláudia Guerra

    Vereadora pelo PDT em Uberlândia/MG, presidente do PDT/Uberlândia,  vice-presidente da AMT/MG e pré-candidata à reeleição ao legislativo municipal.

    20 de maio de 2024

  • Metendo as Colheres nas Violências às mulheres

    Metendo as Colheres nas Violências às mulheres

    O programa Vivências em Formação Política, organizado pela Laboratório de Geografia e Educação Popular da UFU, foi uma grande oportunidade de aprendizado.

    Confira nosso encontro com o tema Metendo as Colheres nas Violências às mulheres: gênero, movimentos sociais e políticas públicas em Uberlândia (MG).

    Clique no link para assistir ao encontro. https://youtu.be/K4hZtjL02_w

  • #EUMETOACOLHER: 10 DE OUTUBRO, DIA NACIONAL DE LUTA CONTRA A VIOLÊNCIA ÀS MULHERES

    #EUMETOACOLHER: 10 DE OUTUBRO, DIA NACIONAL DE LUTA CONTRA A VIOLÊNCIA ÀS MULHERES

    Cláudia Guerra*

    Comemoramos o dia 10 de outubro no sentido de trazer à memória, a instituição do Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher. A data teve seu marco em 1980, quando várias mulheres brasileiras se reuniram nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, em movimento nacional, protestando contra o índice crescente de crimes contra mulheres em todo o país. 

    Naquele evento pretendeu-se, além da implementação de políticas públicas e reformulação do Código Penal, dar visibilidade aos milhares de casos de ameaças, constrangimentos, espancamentos, estupros, assassinatos bárbaros esquecidos no anonimato da esfera doméstica. Isso porque, na sua grande maioria, são cometidos por companheiros, parentes próximos e/ou conhecidos e, por isso também, não denunciados. 

    A proposta do movimento era instituir serviços de orientação e atendimento integral para vítimas em todo o país, tornando visíveis as relações de violência doméstica. Movimentos semelhantes nasceram em várias cidades brasileiras, capazes de interferirem na opinião pública, principalmente no que se referia à punição dos criminosos. Foram criadas e disseminadas as Delegacias Especializadas em Crimes contra a Mulher, a partir de 1985 (a de Uberlândia foi criada em 1988). Além disso, foi desencadeado um trabalho educativo/preventivo, enfocando as raízes sócio-históricas e culturais destas violências. 

    Passou-se a “lavar a roupa suja” no espaço público, forçando a reflexão por parte da sociedade e das instituições sobre o problema, exigindo-se a tomada de providências, ações afirmativas e políticas públicas voltadas para a minimização das relações violentas. É preciso dar um basta aos assassinatos de famosas e anônimas: Rosalinas, Angelas Dinizes, Elianes, Danielas Peres, Robertas e Sandras, por Docas, Tubals, Lindomares, Guilhermes, Malveiras e Pimentas, dentre tantos.

    Dados nacionais apontam que a cada hora, mais de 500 mulheres são agredidas no Brasil. 76% dessas vítimas alegam que o agressor era o marido, um ex-namorado. Os dados são de 2018 e foram divulgados pelo Datafolha, encomendados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ou seja, 1 em cada 4 mulheres, no país, passou por violência, em 2018. O cronômetro da violência aponta para 1 estupro a cada 11 minutos (11a Edição do Anuário de Segurança Pública, FBSP, 2017). 

    O Brasil está em 5o lugar no ranking mundial em assassinatos de mulheres, sendo a maior parte negras (Mapa da Violência, ONU Mulheres, 2015). Com o aumento da convivência familiar, em tempos de pandemia da COVID 19, os índices de violência doméstica se elevaram em média 45% a 50% e há subnotificação.

    Em Uberlândia, desde 1997 a organização da sociedade civil SOS Mulher e Família, possui a missão de contribuir com a cultura da paz, mediante atendimento sociais, psicológicos e jurídicos continuados, gratuitos, voltados a pessoas de Uberlândia e região que vivenciam violência conjugal, familiar e de gênero. Seus diferenciais: sigilo e a outra parte convidada a comparecer somente se houver consentimento de quem buscou auxílio; os acolhimentos são realizados sem exigência de apresentação ou registro de Boletim de Ocorrência; atendimentos prioritários às mulheres, entretanto também atua com atendimentos a autores de violências; realiza ações educativas, preventivas e orientações a pesquisadores (as). Deseja possuir sede própria, ampliar sustentabilidade e estabelecer parcerias com o público e privado, fornecendo o Selo Empresas ou Gente Paz. 

    Neste 10 de outubro, faz-se necessário um balanço das políticas públicas existentes e seus desafios, bem como sobre a Lei Maria da Penha e sua efetiva operacionalização, desde 2006; a Lei contra o Feminicídio, de 2015; a Lei contra Divulgação Não Autorizada de Intimidade Sexual, de 2017. Com essas e outras políticas públicas, passou-se a “meter a colher em briga de marido e mulher”, encorajando-se a busca de ajuda, para que a violência existente não se intensifique. 

    A vida recomeça quando a violência termina e onde há violência, todas as pessoas perdem. A desconstrução de violências começa em casa, passa pela escola, pelas redes sociais e por todas as relações cotidianas.

    Para quem precisa de ajuda gratuita, continuada, especializada, com acolhimento, sem julgamento e sem precisar de registro de ocorrência, entre em contato com o SOS Mulher e Família de Uberlândia: (34) 99636-7862 e 3215-7862, funcionamento de segunda a sexta, das 8h às 17h.

    Site: www.sosmumulherfamiliauberlandia.org.br.

    Existe também o Disque 180, do Brasil todo.

  • Por que ela simplesmente não vai embora?

    Por que ela simplesmente não vai embora?

    Muita gente se faz essa pergunta diante das situações de violência contra mulheres. Essa foi uma das perguntas que me fiz durante o Doutorado em História. Nessa palestra, realizada em 3 de dezembro pela Escola do Legislativo, falo um pouco sobre o tema.

    Em minha dissertação de doutorado, ouvi mulheres vítimas de violência e descobri que a resposta não é tão simples. É preciso acolher, ouvir, orientar e permitir que essa mulher tome suas próprias decisões.